sábado, 5 de outubro de 2013

10 Anos de Historia - Parte 4 - Tornando-se Real

Em 2007 uma série de decepções fizeram meus escritos divergirem uns dos outros. Ao mesmo tempo que eu me dedicava ao terceiro livro sci-fi daquele projeto ainda secreto, eu também me aventurava em contos mais realísticos, mais cotidianos, porém também um pouco absurdos e até revoltados... Foi nesse meio tempo que produzi um dos meus contos preferidos.

Comecei o ano publicando uma pequena crônica, sobre uma garota que conheci em uma longa viagem de ônibus. Até hoje tenho amigos que me perguntam: "E aquela moça do conto? Nunca mais falou com ela?". Infelizmente, a resposta ainda é uma negativa, não que hoje ela me faça falta, mas na época, achei que algo interessante poderia acontecer. Na verdade, eu queria ter publicado o "Un Real", mas por mais que eu cortasse palavras e trechos dispensáveis, eu não conseguia fazer caber no limite determinado para a coletânea. Isso foi quase motivo de briga entre irmãos por aqui... Mas no final, tudo deu certo, e fiquei muito contente com o resultado.

Fiz um sacrifício, e apesar de certamente ela ter me tomado por um tipo de louco, eu consegui entregar um exemplar a ela, antes que ela viajasse para a Europa e, após um breve e-mail, nunca mais nos falássemos...

Essa foi apenas uma das decepções... 2007 começou com uma avalanche de coisas desagradáveis em meio a mudanças muito importantes na minha vida. Eu já estava há um ano morando novamente com meus pais, estávamos para nos mudar, eu iniciava meu trabalho no Bentinho, mas ainda sofria os horrores do fim do meu relacionamento e os atropelos de quem tenta retomar a vida romântica.

Então, quando o ódio pelo mundo das "pessoas normais" chegou ao limite, quando eu estava a ponto de explodir, escrevi meu conto mais mundano, sarcástico, irônico, sínico, cético e tudo que há de amargo, ao mesmo tempo recheado de um humor de mal gosto que me ajudou a exorcizar todos aqueles demônios.
"Monge Francisco e seu MP3-Player" é um de meu conto favorito, que certamente seria tomado como extremamente ofensivo para a grande maioria das pessoas. Na época eu sofria muita influência de Gabriel Garcia Marques (um verdadeiro mestre, escritor de 100 Anos de Solidão) e também de vários filmes da onda "Quem vai ficar com Mary?". Dessa mistura surgiu a história de um "boyzinho" que resolve fugir de casa para virar monge franciscano, mas relutando a se libertar de seu Toca MP3...

Ao terminar o conto, a satisfação do meu trabalho me fez sentir muito melhor. Eu notei que não apenas tinha conseguido me expressar da maneira que eu queria, como também havia alcançado um novo nível em meu desenvolvimento como escritor. Seguro de que seria capaz de vencer, tornei a participar de vários concursos, até virtuais... Mas mais uma vez, sem alguma resposta favorável.

O ano se passou, e no início de 2008 eu novamente participei da Coletânea Komedi, agora novamente com poesias. Algumas delas, bem românticas, que haviam sido escritas no ano anterior. Esta eu presenteei a uma outra moça que por um tempo chamou minha atenção, principalmente pela sua beleza estonteante, pois silenciosa e reservada, mal consegui me aproximar dela nos anos em que compartilhamos o mesmo espaço. Se eu não tivesse me iludido tanto, diria que valeu à pena, apenas por observá-la de longe, pois ela era um colírio para os olhos. No entanto, nem as poesias foram capazes de despertar sua curiosidade por mim...

(Perdoe-me se aparece que vou passar o post todo me lamentando. Não é esse meu objetivo. É que não há como fazer uma retrospectiva desses 10 anos sem abrir um pouco meu coração, já que o trabalho de um escritor está intimamente associado às coisas que se sente e como se consegue expressá-las.)

A essa altura eu não tinha por certo que publicaria meu primeiro livro ainda naquele ano. A proposta veio de minha irmã, que ainda trabalhava na editora Komedi. Refletindo, eu fui me conformando de que não conseguiria espontaneamente que alguma editora decidisse publicar. O fato é, se eu quisesse meu livro publicado, eu teria que pagar. Outra análise que pesou na balança foi o fato de que meu livro já havia envelhecido cinco anos. Pensei que se eu deixasse passar mais tempo, minha história de 2003 já não faria mais sentido, por ter sido muito atual, e pouco atemporal, pelo menos, à primeira vista. Então, decidi pegar alguns reais que eu havia economizado e investir dessa produção.

Teste de Capa - Dentre os Rejeitados, meu preferido.
Em alguns meses, várias coisas tiveram que ser decididas: a fonte que seria usada, a cor do papel, o tipo de papel, se haveria desenhos nas páginas, se a capa seria colorida, se seria laminada ou fosca etc. Vários orçamentos foram feitos até que uma decisão final foi tomada e os trabalhos de revisão começaram.

Vou descrever aqui um pouco de como funciona o procedimento de publicação, e gostaria de dizer que fiquei extremamente contente com o trabalho da Editora Komedi, o Editor Sérgio Vale e toda equipe foram muito dedicados e fizeram um trabalho impecável.

Após enviado o original incia-se a primeira revisão. A "prova", como assim é chamada, é enviada a mim para eu verificar se tudo está nos conformes. Então ela vai e volta mais uma vez, para fechar a edição. É uma etapa muito importante, e nesse momento o autor não pode ter preguiça de reler toda obra para encontrar os erros, ou isso atrasa muito o trabalho da publicação. Fora isso é só esperar que tudo fique pronto. A editora normalmente faz os acordos de divulgação, distribuição, da noite de lançamento, fornece o champagne e até a impressão dos convites.

Meus quinze minutos de fama haviam chegado e eu os segurei da melhor maneira que pude. Comuniquei familiares, amigos e a mídia também foi contatada. A TVB veio fazer uma entrevista, que foi muito interessante (pena não ter passado na íntegra e eu também não tive a oportunidade de gravar). Saíram matérias nos jornais... Enfim, muitas coisas legais estavam acontecendo para me reanimar.

Lançamento na Livraria Cultura - Foto de Fabio Yamauti
Abaixo ficam as matérias que saíram nos jornais... Enquanto isso eu me preparo para a Parte 5 - Atirando para todo lado.

Diário do Povo
Correio Popular
ps - Acreditem, lá pelo início de 2009 eu vi - juro que vi - um monge franciscano andando pela rua mexendo em seu iPod!