domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Infância de Alef - Parte 3 de 3


Livro Gêmeos.Virtuais e XIII Coletânea Komedi

1990

Ele estava quase completando quatro anos quando começou a gostar muito que o pai lhe contasse histórias, menos da bíblia, pois ele já conhecia e achava que tinha coisas muito tristes que ele não gostava de se lembrar. Certo dia o pai, por curiosidade, resolveu buscar o Alcorão, que estava esquecido entre tantos livros em sua biblioteca particular e começou ler a ele alguns suratas, mas Alef não quis, pois disse que já conhecia. O mesmo aconteceu para a Torá e para o Mahabarata, que acrescentou ser muito violento. Era só o pai começar a ler algumas palavras e o garoto já interrompia e pedia que lesse outros contos, os infantis. Adorava “A Branca de Neve”, “Os Três Porquinhos”, “João e Maria”, mas seu preferido era “Peter Pan”, Anderson e Maira contavam e recontavam essa história e muitas vezes já estavam quase dormindo quando ele os acordava para que continuasse. E certo dia, depois de ter ouvido a história uma centena de vezes ele disse: “Papai... Tenho mesmo virar gente gande?”, “Sim filho, todos nós crescemos um dia”, “Eu não quéio quecer. Eu vou machucar as pessoas”. O pai se assustou, mas tentou manter a calma: “Todo mundo machuca alguém às vezes, é normal”, “Mas eu vou machucar muita gente... Não me deixa quecer papai”.
Alef era uma criança muito feliz, mas nesses momentos parecia carregar um fardo tão grande, maior que o de um adulto que já enfrentou muitas dificuldades na vida. Uma melancolia muito grande o atingia e os pais começaram a considerar a possibilidade de procurar um psicólogo. Nessa mesma época, Regina adoeceu. Tão pequena e tossia sem parar. Os médicos diagnosticaram como uma gripe forte e receitaram os remédios. Mas o sofrimento dela atingiu a família e os deixou muito tristes. Num desses dias de repouso da menina, Maira estava sozinha com as crianças e precisou ir até a cozinha cuidar da comida e pediu: “Alef, cuide de sua irmã por alguns instantes, eu já volto”. Dona Maira foi até a cozinha com o coração partido de ouvir a amada filhinha tossir tanto. Felizmente as pequenas obrigações da cozinha a fizeram esquecer por alguns instantes aquela dor. Quando deu por si, já não podia mais ouvir a tosse da filha. O que a devia deixar tranqüila, apenas a alarmou: “Filho, está tudo bem com Regina? Filho?”. Alef não respondia então Maira correu para o quarto e encontrou a filha dormindo sossegada e respirando com facilidade. Alef nem se importava, estava assistindo desenhos animados. A mãe tocou o peito da filha e percebeu que sua respiração não tinha mais aquele ronco típico da gripe e ficou perplexa. Olhou para o filho e não hesitou: “Alef, você fez alguma coisa com Regina?”, “Não mamãe, eu tava quetinho”. Maira suspirou fundo e estava de saída quando ouviu: “Foi Bete que fez...”, “O que ela fez?”, respondeu a mãe sem nada entender “Ela curou a Regina”. Aos prantos a mãe lhe disse: “Então diga a Bete que serei eternamente grata e que a amo como se fosse minha filha também”, “Ela sabe mamãe. E disse que é sua filha também”.

1991

Dias e meses passaram e a melancolia de Alef parecia ter diminuído. Ele já não falava tanto de seus irmãos e sua amizade com Bete não atrapalhou sua amizade com Regina, nem com os amiguinhos da escolinha, quando começou a freqüentar. Ele era um garoto muito competitivo, sempre queria ser o primeiro. Não dava muita atenção aos ensinamentos, mas sempre que havia uma lição ele respondia sem pestanejar. A professora e a coordenação ficavam impressionadas com a capacidade dele e atribuíam isso à cultura dos pais, ambos graduados e ainda estudiosos.

1993

Os problemas voltaram a aparecer no seu sexto ano de vida quando acordou novamente chorando de madrugada. Dessa vez, mãe e pai foram acudi-lo e ele dizia, aos prantos: “Bete vai embora! Bete vai embora! Não deixem ela ir embora!”. Depois desse dia ele tentava falar com ela que parecia não mais responder. Começou a ficar muito triste. Algumas vezes ele disse que a via, mas era só por alguns instantes, com o canto do olho: ela sorria e sumia quando ele olhava. Quando isso acontecia, sempre chorava e começou a ficar agressivo quando os pais tentaram compensar essa perda, para ele, irreparável. Esse comportamento se estendeu para a escola e ele começou a agredir os coleginhas quando estes o contrariavam. Os pais foram chamados muitas vezes pela coordenação que, decepcionada, acabou convidando-os a tirar o menino da escola e que procurassem tratamento, para ele e para os pais. Chegaram até a alegar que o casal estava se desestruturando e que isso certamente estava atingindo a criança. O que não era verdade: Anderson e Maira tinham seus problemas, mas nunca deixaram que seus laços afrouxassem a tal ponto. Injuriados, procuraram várias escolas, mas em pouco tempo tinham que tirá-lo, pois seu comportamento era muito arredio. Deixaram que um tempo ele ficasse apenas em casa e contrataram uma psicopedagoga até que acabasse o ano letivo e ele pudesse voltar à escola.
Veio então uma doutora gentil, que aos poucos conseguiu conquistar sua amizade. Ela também criou um profundo afeto pelo menino e passou a freqüentar sua casa quase todos os dias, às vezes, apenas para brincar com ele. Demorou meio ano até que ele conseguisse esquecer Bete e seus irmãos, mas foi muito rápido dada a gravidade da situação. Começou a se relacionar novamente muito bem com os pais, com a irmãzinha e tudo ia muito bem. Parecia que a família teria paz por algum tempo. Alef se tornou mais calmo e paciente, tanto que aceitou muito bem quando a psicóloga disse que passariam a se ver menos e depois, menos ainda e que depois de um tempo talvez não se vissem mais. Ele chorou muito, mas não de mágoa, apenas pela emoção. E mesmo sem que ninguém tivesse lhe avisado, no dia que seria sua última visita ele disse a ela: “Adeus, tia Theodora”.

***

Assim termina meus escritos sobre a infância de Alef, abrindo as portas para o futuro capítulo que ainda escrevo sobre sua juventude. Espero que tenham apreciado a leitura e que estejam curiosos por mais.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Conhecimento de Causa

Deve fazer mais ou menos uma semana que não avanço com o capítulo extra (apêndice 2) de Gêmeos.Virtuais. Além de outras obrigações, ainda teve o carnaval, no qual fui fazer trilhas e visitar cachoeiras com grandes amigos. Mas isso foi bom, pois nesse meio tempo uma amiga que consultei para saber uma informação sobre caixas-postais dos correios me respondeu e ainda me passou uma informação completamente oposta à que eu havia imaginado. Eu a contatei exatamente para pedir uma "Consultoria Literária", digo, para ver se a coisa é na realidade como eu pensava. E, nesse caso, não era. O difícil é que eu já havia escrito, acreditando que eu estava correto (Rá Rá Rá), agora é que vem o "twist" do enredo: como eu farei para contornar a situação? Escrevo tudo novamente? Dou um nó na trama e deixo no ar? Ou prossigo com o problema dou uma explicação posterior?

Esse é um dos grandes desafios da escrita... O que desejamos? Escrever criando um universo que é totalmente diferente do nosso, um universo semelhante ao nosso, mas que não está preso a regras ou um universo exatamente igual ao real, no qual cada detalhe tem que ser seguido?

Penso que, independentemente da escolha, acho que temos que prosseguir da maneira que a história fique mais interessante, que tenha alguma mensagem a passar que seja ao mesmo tempo entretenimento e cultura. Só entretenimento pode ser vazio, mas só cultura pode ser muito chato. Tem que se procurar o equilíbrio.

Tenho certeza que em todos esses meus anos de escrita eu cometi vários "erros" como este que citei no início, mas acho que faz parte da evolução do escritor tentar cada vez mais buscar um conhecimento de causa do que se vai descrever para, pelo menos, saber "onde está pisando".

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Escrevendo...

Voltar a escrever é uma experiência incrível, principalmente quando se nota o quanto se pode explorar em cada situação, em cada personagem em cada nó da trama. Há seis meses meu médico homeopata (magnífico médico, por sinal) me perguntou como andavam meus escritos e eu respondi que fazia muito tempo que não produzia nada. E ele sabiamente disse algo como: "Quem sabe você volte a escrever dentro em breve". Não consigo me lembrar das palavras exatas, na hora soou bem mais profético. Enfim, é prazeroso poder me debruçar novamente sobre este teclado cheio de letras desarranjadas e, mesmo não sendo um exímio datilógrafo (uso apenas 2 dedos e meio em cada mão), poder organiza-las em uma ideia que começa a fluir com tanta facilidade que é difícil parar.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

8 Anos de Gêmeos.Virtuais - O 11 de Setembro e a Guerra do Iraque.


Pessoal, este é um artigo que publiquei no Facebook quando se completaram 10 anos do "11 de Setembro". Lá no Face ele estava privado apenas para os usuários, então posto ele aqui para que fique pública minhas considerações sobre esta data histórica e a relação que ela tem com o livro Gêmeos.Virtuais.

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por José Raphael Daher, domingo 11 de setembro de 2011, 18:43 ·

11 de Setembro, Al-Qaeda, Osama Bin Laden, Saddam Hussein, George W. Bush, a 3ª Guerra do Iraque, a "Ameaça" Norte Coreana e a Criação dos Gêmeos.Virtuais.

Venho aqui prestar minha homenagem às vitimas dos ataques realizados nesta mesma data, à 10 anos atrás. Tenha ele sido realmente planejado pela Al-Qaeda, ou não, os eventos que se iniciaram neste dia serviram como um motivo adicional para que os Norte Americanos invadissem o Iraque, pois acusavam o governo Iraquiano de manter relações estreitas com esta chamada organização terrorista, além das acusações sobre a confecção de armas de destruição em massa. Além disso, os Norte Americanos alegavam ter como missão libertar o povo Iraquiano de um governo ditatorial. Com esses motivos iniciou-se a Guerra do Iraque, que muito me marcou no ano de 2003, pois eu já havia visto outra acontecer, em 1991. Ver novamente o Oriente-Médio ser atacado por motivos não menos obscuros, e claramente interesseiros, caiu como uma bomba sobre mim em uma época em que o gosto pela escrita estava nascendo. Lembrar do 11 de Setembro, que também é a data da morte do falecido Prefeito de Campinas, Toninho, que também certamente foi assassinado por causas não menos obscuras (e certamente tão políticas quanto às da guerra cuja semente havia sido plantada no mesmo dia) é para mim um evento quase onírico. Eu, como muitos, vi ao vivo o segundo avião bater contra a outra torre. Uma grande amiga minha, vivia então nas proximidades. Vi o quão perto os embaraços políticos e diplomáticos internacionais podiam estar de nós a ponto de quase nos envolver.

Demoraram 2 anos para que a Guerra no Iraque fosse declarada, demoraram também dois anos para que eu começasse a escrever. De certa maneira, devo à todos os envolvidos nessa guerra interminável de fé, política e mercado, a criação da minha primeira história. Mesmo sendo uma ficção científica, talvez ela não seja tão fantasiosa quanto as diversas declarações oficiais sobre organizações terroristas, ameaças nucleares e motivos "altruístas" para invadir um país. Agradeço também a todos que me deram apoio na minha empreitada de escrever e publicar um livro tão audacioso, controverso e, certamente, sentimental e imaturo, pois ele me abriu muitas portas. Volta e meia me pego relendo Gêmeos.Virtuais para ver se não fui exageradamente descuidado com a geopolítica e a história de fundo em troca da liberdade literária. Reflito até hoje se devia ter pesquisado mais e buscado a maior verossimilhança possível com a realidade, com as possibilidades diplomáticas e históricas de uma guerra que envolvesse principalmente os Norte Americanos, Iraquianos e Norte Coreanos... Até hoje tento me convencer que, tendo sido um escritor iniciante e amador, eu consegui dar asas à minha imaginação latente que nunca tinha tomado a forma de uma obra completa. Quantas coisas eu havia iniciado e deixado pela metade até então... Pela primeira vez eu tinha um enredo pronto, só me faltava preencher as lacunas e escrevê-lo, do início ao fim, sem esmorecer, sem perder a autoconfiança ou a auto-estima.

De certo modo, meu conto, como qualquer outro conto ou romance já escrito, não é verdadeiramente propriedade do autor, mas sim, da humanidade, pois, assim como qualquer outra obra, se baseia em fatos reais ou no que já foi escrito antes, com a única diferença de que traz uma nova roupagem, uma nova visão, uma nova interpretação. Assim como Senhor dos Anéis é uma releitura da Mitologia Nórdica e assim como Os Lusíadas são um poema épico e fantástico baseado nas viagens e nas conquistas de Vasco da Gama e seu povo (e na Ilíada/Odisseia). Nem de longe querendo me comparar a tão geniais mentes como Tolkien e Camões (ou mesmo Homero), venho apenas demonstrar que história e fantasia, ciência e ficção podem facilmente se mesclar na mente humana e a única coisa que precisamos é coragem para que ela tome corpo.

Que Deus encaminhe, proteja e abençoe as almas das vítimas dessa horrorosa tragédia e dessa guerra que lembramos hoje. Que seus filhos e familiares um dia encontrem a paz no coração e que a Luz Divina os faça homens e mulheres de uma nova geração na qual se compreenda que não há Paz enquanto cedermos ao desejo cruel de dominação e de retaliação sem medir consequências. Que a arte possa ser um dos caminhos de reflexão para todos nós. Um ótimo DOMINGO a todos. Sinceramente, J.R.Daher.

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A Infância de Alef - Parte 2 de 3


1989, Brasil

Um dia o menino acordou assustado e chorando desesperadamente. Naquela época tinha pouco mais que três anos, era um garoto saudável que nunca tinha apresentado maiores problemas desde que nasceu, ou melhor, desde que chegou. A mãe correu assustada, como fazem todas as mães, mesmo quando a criança não saiu de seu próprio ventre. Ela o pegou nos braços e abraçou muita força, para dar-lhe segurança e embora ela não tivesse lhe perguntado o motivo, ele disse: “Mamãe, onde tão meus imãos?”, “Regina está nanando”, ela respondeu sem demora. “Não mamãe, meus outros imãos, meus imãos di vedade”, com essa pergunta ela ficou arrepiada até as pontas dos fios de cabelo, mas respondeu trêmula: “Só sei que estão bem, fofo, fique tranqüilo, Alef”, “Não... Não tão bem! Eles vão moê! Ajuda eles, mamãe! Po favo! Eles vão moê!”. Então ela chorou e se deitou ao seu lado, para acalmá-lo até que conseguisse dormir.
No dia seguinte e no outro nada mais ocorreu. Continuava uma criança feliz e saudável. Brincava e brigava com sua irmã caçula causando todos os problemas que uma família finge não gostar de ter com os filhos. Um dia Dona Maira, a mãe, estava cozinhando e Alef se aproximou para observar. “Qual o nome dête?”, ele perguntava apontando para algo, “Rabanete”, “Po quê?”, e a mãe brincava: “Porque ele parece um rabo!”. Alef gargalhava alto deixando sua mãe feliz. “E ête?”, “Cenoura”, “Po quê?”, “Porque é a mulher do Cenor! Bom dia Cenor, bom dia Cenoura!”. E novamente ele ria de maneira tão agradável. “E ête, mamãe?”, “Pepino”, “Po quê?”, “Pois é um pé em forma de pino!”. Desta vez até a mãe riu muito, mas parou quando percebeu que seu filho já não estava mais rindo. “O que foi, filho?”, “Mamãe, po que eu chamo Alef?”. Então ela continuou cortando os legumes e tenta se lembrar quando escolheu este nome, mas sua memória falhou então, apenas para não decepcionar o filho, respondeu: “Por que Alef é o nome mais bonito desse mundo, assim como meu filhinho”, mas ele franziu as sobrancelhas e respondeu: “Não... É poque eu sou o pimêio... E o último”. A mãe soltou a faca e suas pernas vacilaram. A faca caiu fazendo um ruído estridente, mas ela só se preocupou em se sentar. “Mamãe, ta tudo bem? Mamãe?”. E ela apenas olhava o filho, com receio no coração.
Nas noites seguintes foi a vez da mãe ter sonhos perturbadores, enquanto não teve coragem de contar ao pai. E, quando ela o fez, ele não se surpreendeu: “Tranqüilize-se, querida, ele é apenas uma criança. Mas se algo de estranho acontecer novamente, não deixe de me contar de pronto, para que você não fique tensa”. Mas não demorou até que o pai começasse a presenciar acontecimentos estranhos. Certa feita, numa comemoração, Maira chamou algumas amigas para relembrar a época de escola. Alef estava dormindo e quando acordou veio cambaleando até a sala, ainda perdido pelo sono. Logo buscou mãe que o acolheu no colo com muito carinho, sensibilizando as colegas que soltavam interjeições amáveis. “Oi filho... Dormiu bem?”, ele assentiu, mas continuou com os olhinhos fechados, ainda ressonando. Imaginando que o filho fosse voltar a dormir, continuou a conversa: “Do que falávamos mesmo? Ah! Da professora maluca... Gente, o que tinha aquela mulher? Ela já morreu?”, “Ai, nem sei”, respondeu a amiga “Mas se morreu, foi para o céu, pois ela sofreu horrores com nossa sala”, continuou a outra. Então o pai, Anderson, se aproximou, trazendo a jarra de suco e os copos e perguntou: “Acho que você já me falou dela, como era mesmo seu nome?”, e a mãe respondeu: “Bete”. Alef arregalou os olhos na hora e todos ficaram um pouco assustados, mas começaram a rir, pois ele fez uma carinha muito engraçada. “Agora ele acordou mesmo”, disse uma amiga, mas quase a interrompendo ele disse “Bete é minha imã”, e todos riram novamente. “Não filho, é Regina. Se confundiu?”, “Não... Bete é minha imã. Regina não”, “Não fale assim filho, que falta de respeito”, disse o pai, mas Maira já estava preocupada, lembrando-se da outra noite. “Tudo bem, filho”, disse a mãe, tentando apaziguá-lo em vão. “Eu amo muito a Bete. Ela ta sempe comigo”. Todos ficaram um pouco desconcertados e procuraram não tentar dissuadi-lo, para não prolongar o assunto, pois as amigas perceberam que Maira ficou muito incomodada. Anderson relutou, mas ainda imaginava se tratar apenas de um sonho, ou de uma amiga imaginária.
A partir daquele dia, Bete acompanhava Alef em qualquer lugar, pelo menos, era o que ele dizia com frequência. Bete dormia com ele, almoçava com ele, brincava, corria, assistia televisão, ouvia música e tomava banho com ele. Por vezes os pais o viram conversando, assuntos de criança, como dinossauros, carros, aviões, desenhos, heróis e robôs e isso até os deixava feliz, pois Regina era muito pequena para conversar com ele e onde moravam não havia muitas crianças e ele teria de esperar até começar a escolinha. Até que um dia o pai foi chamá-lo para almoçar e o pegou observando uma bíblia ilustrada. Ele olhava com tanta atenção que o pai não teve coragem de incomodá-lo e ficou apenas espiando pela fresta da porta: “Bete, o que ta esquito aqui?”, ele aguardava um tempo e dizia “Ah... Po que?”, novamente aguardava um tempo e virava algumas páginas. “E ete?”... “Mmm... Eu não lembo disso”... Então virou várias páginas até cair nos salmos, um deles, em especial, é dividido em vinte e duas partes. Ele apontou para o primeiro nome e disse “Alef... Ete sou eu... Bete... Eta é ocê... Gimel... Foi emboia? Dalet... Foi emboia? Het... Teth... Tudo eles?”. Alef começou a choramingar, mas antes que o pai entrasse, ele perguntou a Bete: “Po que só tem eu e ocê agoia?”, e começou a chorar. O pai entrou, abraçou o filho e deixou que ele chorasse bastante, até que disse: “Você tem muita saudade dos seus irmãos?”, o menino assentiu e disse, “Bete também”, “É ela quem lê a bíblia para você?”, “Não... Só as palavas que eu ainda não lembo”.
Os pais passaram a ficar mais preocupados, mas acharam muito cedo para procurar ajuda profissional. Anderson não conseguia localizar Ahmed, o amigo que havia lhes doado a criança, nem pelos consulados, nem pelos colegas. Ele havia desaparecido. No entanto, toda aquela estranheza do menino os iluminava e eles não conseguiam acreditar que poderia ser nocivo para ele ou para outrem.

Continua...

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Voltando a escrever...

Outro dia conversava com um grupo de amigos quando um deles, ao comentar sobre um famoso escritor, disse sobre um período no qual não se consegue escrever - um período pelo qual muitos escritores passam, quando ficam debruçados sobre uma folha de papel com um lápis ou uma caneta na mão, ou em frente à uma máquina de escrever ou, hoje em dia, na frente de um monitor, com as mãos sobre o teclado sem conseguir formular uma frase sequer. "Como se chama este período mesmo?", ele me perguntou, "Não me lembro", eu disse "Mas estou passando por isso".

Isto foi na sexta passada, quando meu "Bloqueio" (este é o nome) que durou dois anos estava para terminar.

Depois de escrever por praticamente 6 anos seguidos, quase todos os dias (nos piores períodos, pelo menos uma vez por semana) meu combustível acabou. Eu já não tinha mais como dizer o que desejava, as palavras, expressões e formas haviam desaparecido e até mesmo o entusiasmo pelo enredo em andamento.

Qual foi o remédio para isso? Leitura. Eu precisava renovar meu vocabulário, conhecer novas formas de escrita e outros estilos.

Então, após todo este tempo consigo escrever uma página! Parece pouco, mas agora analiso este trabalho de uma perspectiva um pouco diferente...

Como se trata de um capítulo extra de uma história já escrita, é interessante agora ter a consciência de como a própria alma da história coloca certas limitações tanto no conteúdo como na forma, ou seja, eu acabo escrevendo quase da mesma maneira que fazia à nove anos atrás, quando escrevi a primeiras páginas de Gêmeos.Virtuais. Vejo que, mesmo depois de ter escrito tantas coisas diferentes, ao me debruçar sobre os mesmos personagens, é como se minha escrita imediatamente se adequasse ao universo deles e só pouco a pouco eu conseguisse dobra-lo às minhas novas tendências.

Diferentemente do que eu fazia no passado, quando eu apenas ia escrevendo verborragicamente mal me preocupando com uma verossimilhança de costumes e localizações, me vi pesquisando na Internet lugares mais apropriados para o cenário e até trajetos no GoogleMaps. Aos poucos eu também tento dar uma profundidade levemente maior aos personagens e hábitos, mas tentando não perder o clima da leitura original que por ser inexperiente também era simples, de fácil leitura. E o motivo disso é que se um dia eu conseguir lançar uma segunda edição do livro, eu gostaria muito de incluir estes capítulos extras, não como apêndices, mas no corpo da história, encaixados em momentos oportunos para enriquecer e esclarecer certos pontos da trama. E para que o resultado final não se torne um monstro de Frankenstein a fluidez da leitura tem que ser similar.

Vou tentar manter um ritmo de, pelo menos, uma página ou duas por semana. Acho que é uma boa velocidade para este reinício.

Um grande abraço a todos e boa semana!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A Infância de Alef - Parte 1 de 3

       Caros! Segue a primeira parte deste capítulo extra da história de Gêmeos.Virtuais, para dar início a uma série de degustações do livro que vou postar com determinada frequência, para esquentar o clima do novo apêndice que comecei a escrever, sobre a juventude de Alef.
       Como este capítulo extra não faz parte do livro e como a XIII Coletânea Komedi não está à venda em livrarias e eu já não tenho mais exemplares comigo o único meio deste texto chegar a quem ainda não o leu é através da Internet (ou pela grande sorte de conhecer alguém que também tenha participado da coletânea ou ganhado um exemplar de um amigo). Espero que apreciem a leitura.

***


Sempre gostei de histórias que, a princípio desconexas, se unem no final. Cinco anos depois de terminar Gêmeos.Virtuais decidi escrever um capítulo sobre a primeira infância de Alef constituindo um elo com um romance que ainda está em produção. No entanto a coletânea estava para sair e achei que este seria um momento mais oportuno, visto que o livro acabou de ser lançado. Então, se você já leu Gêmeos.Virtuais, espero que esse episódio lhe traga alguns esclarecimentos (e outros questionamentos). Se você ainda não leu, espero que essa leitura lhe desperte o interesse para conhecer.

O Autor.



Gêmeos.Virtuais – Apêndice 1 – A infância de Alef


1980, Bagdá


Uma carta é levada às pressas através dos corredores do 1º Palácio para o gabinete do presidente Saddam Hussein. O oficial treme e transpira, por saber que um atraso significaria punição, mesmo que não fosse sua culpa. Durante o caminho ele pensa em sua família, rezando para seu Deus que aqueles não se tornassem seus últimos momentos. Tocou duas vezes na porta e ao ouvir a ordem, entrou. O presidente estava olhando pela janela, falando ao telefone, utilizando um inglês arrastado e mal deu atenção ao oficial, que apenas aguardou, com os olhos fitando o infinito e a carta entre as mãos. O presidente Hussein, ainda muito envolvido com o telefonema apenas abanou a mão direita para que o oficial deixasse a carta e se fosse. Então o rapaz, aliviado, deixou o envelope sobre a mesa e saiu, prestando continência. Ao terminar o telefonema, abriu a carta com um rasgo e retirou de dentro o documento que trazia no topo o brasão do gabinete do presidente dos Estados Unidos da América. A carta continha as informações que seu governo tanto esperava: um financiamento bilionário para prosseguir com as pesquisas nas áreas de genética, inteligência artificial e outras áreas de interesse, contudo, com a condição já aceita de revogar um acordo feito com o Irã e retomar aproximadamente 500 quilômetros quadrados de terra, cujos recursos pretolíferos seriam de propriedade dos Estados Unidos. Nos anos seguintes, enquanto se desenrolava a Guerra Irã-Iraque, com apoio da União Soviética e Arábia Saudita, outros vinte e um laboratórios subterrâneos estavam sendo construídos, espalhados por todo Iraque e no primeiro deles as pesquisas já estavam sendo desenvolvidas num ritmo vertiginoso.


1985, Basra


Dr. Ahmed trabalhava no Laboratório 1 quando a guerra ainda estava em ascensão e o exército Iraquiano apenas intensificava as hostilidades, bombardeando uma Usina Nuclear ainda incompleta em Bushehr, no litoral sudoeste do Irã. As pesquisas haviam conseguido seus primeiros sucessos na área da genética, quando há um ano Ahmed finalmente conseguiu recolher material genético compatível com o que eles haviam criado em laboratório. Nascia a primeira criança do projeto, gerada no ventre de uma mãe de aluguel anônima que não pôde tomar a criança no colo nem no dia do parto. Era um menino saudável e não apresentava nenhuma má formação. Uma série de exames foi realizada para constatar que ele era perfeito, no mais puro sentido da palavra. Dias depois o Dr. estava em seu escritório quando recebeu uma ligação misteriosa, uma ameaça: alguém havia descoberto sua dupla identidade e exigia que ele reunisse resultados e materiais essenciais do projeto e os entregasse em troca de sua vida e de sua família. Ahmed pensou em sua mulher, em sua filha de apenas um ano e no pequeno recém nascido. Gravou todas as informações em um disquete e o guardou no bolso. Completamente tenso e tomado pela dúvida, foi ver o bebê e orar, para que seu Deus lhe enviasse um sinal. Enquanto observava o menino dormir em paz, expandindo aquele pequenino tórax a respirar ouviu uma surda explosão: o Irã realizava um contra ataque. O laboratório entrou em estado de alerta e evacuação. Tudo estaria perdido. Antes que os oficiais pudessem tomar alguma atitude Ahmed pegou o bebê, enrolou em uma manta e foi até o laboratório principal: mais um equipamento precisava ser protegido antes que tudo explodisse ou que o governo Iraniano tomasse como espólio. Guardou o aparato em um baú revestido de couro marrom com fecho e símbolos dourados. Fugiu por uma saída alternativa até seu carro, evitando ser visto, deitou criança com cuidado no banco do passageiro, guardou o baú no porta-malas, mas pouco antes que entrasse no veículo um soldado suspeitou e se aproximou, apontando o rifle para sua cabeça. O soldado era seu amigo, mas não havia amizade que compensasse a fúria do ditador. O bebê resmungou e o soldado pediu que o amigo se afastasse. Ahmed ficou próximo ao capô e a porta aberta ficou entre ele e o soldado. Sabendo que aquela traição significaria sua morte e de sua família, chutou com violência a porta contra o soldado que, depois de esmagado, caiu para trás. Enquanto o soldado se contorcia, tomou seu rifle e apontou para sua cabeça. Pediu que se ajoelhasse de costas, mas não teve coragem de atirar. Deu-lhe uma coronhada e fugiu. Buscou sua mulher e filha e utilizando seu segundo passaporte voou para o Brasil, onde deixou o baú com um amigo e o bebê com uma família pela qual ele tinha muito apreço.


Continua...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Um pouco mais sobre o passado de Alef...

Para os conhecedores da história de Gêmeos.Virtuais na sua íntegra, sabe-se que além do livro há um capítulo extra, um apêndice (o primeiro, lançado na XIII Coletânia Komedi) que conta um pouco sobre a infância do protagonista, Alef. A ideia original deste apêndice vem na verdade de um outro romance, mais longo que retomaria as origens desse universo criado com esta ficção; Gêmeos.Virtuais.

Recentemente ganhei um livro de amigo secreto, "Contos Fantásticos do Século XIX Escolhidos por Ítalo Calvino", dentre eles há um que me chamou muita atenção: "Der Sandmann" de Hoffmann. Não vou dizer o motivo, para não estragar o conto para quem não leu, muito menos meu livro Gêmeos.Virtuais e o que estou para anunciar, mas lendo este conto me veio a ideia de escrever mais um apêndice para a história de Alef, abordando agora, sua juventude.

Essa ideia veio do fato de que quando escrevi Gêmeos.Virtuais eu não passava de um jovem entusiasmado com a escrita, mas não tinha uma grande bagagem literária, tenho de confessar. E ao ler este conto vi o quando meu livro poderia (talvez) ter seu enredo enriquecido caso eu conhecesse mais referências no caminho que decidi trilhar na escrita: ficção científica e fantástica (em sua maioria).

Notei que é mister fazer jus a essa possibilidade; de dar a Alef e "seu mundo" um brilho a mais que não é de modo algum meramente estético, mas faz sua própria história se desenrolar de maneira mais "natural", pois algumas peças vão se encaixar melhor logo que o apêndice estiver pronto.

Como vou publicá-lo?

Ainda mal comecei a escrevê-lo... Não passam de algumas ideias anotadas, porém, é bem provável que o meio eletrônico seja a via mais apropriada... Provavelmente, o próprio blog, já que se trata de algumas páginas (um capítulo, não um romance completo).

A melhor coisa de tudo é saber que a história de Gêmeos.Virtuais "não terminou". Ela pode se estender para trás e para os lados, apesar do livro ter chegado ao fim.

Eu mesmo não sou um amante de "prequels" (de história que contam o que aconteceu antes), mas acho que quando bem realizadas, só vem a engradecer o trabalho.

Aguardem! Em breve terei mais notícias...