domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Infância de Alef - Parte 3 de 3


Livro Gêmeos.Virtuais e XIII Coletânea Komedi

1990

Ele estava quase completando quatro anos quando começou a gostar muito que o pai lhe contasse histórias, menos da bíblia, pois ele já conhecia e achava que tinha coisas muito tristes que ele não gostava de se lembrar. Certo dia o pai, por curiosidade, resolveu buscar o Alcorão, que estava esquecido entre tantos livros em sua biblioteca particular e começou ler a ele alguns suratas, mas Alef não quis, pois disse que já conhecia. O mesmo aconteceu para a Torá e para o Mahabarata, que acrescentou ser muito violento. Era só o pai começar a ler algumas palavras e o garoto já interrompia e pedia que lesse outros contos, os infantis. Adorava “A Branca de Neve”, “Os Três Porquinhos”, “João e Maria”, mas seu preferido era “Peter Pan”, Anderson e Maira contavam e recontavam essa história e muitas vezes já estavam quase dormindo quando ele os acordava para que continuasse. E certo dia, depois de ter ouvido a história uma centena de vezes ele disse: “Papai... Tenho mesmo virar gente gande?”, “Sim filho, todos nós crescemos um dia”, “Eu não quéio quecer. Eu vou machucar as pessoas”. O pai se assustou, mas tentou manter a calma: “Todo mundo machuca alguém às vezes, é normal”, “Mas eu vou machucar muita gente... Não me deixa quecer papai”.
Alef era uma criança muito feliz, mas nesses momentos parecia carregar um fardo tão grande, maior que o de um adulto que já enfrentou muitas dificuldades na vida. Uma melancolia muito grande o atingia e os pais começaram a considerar a possibilidade de procurar um psicólogo. Nessa mesma época, Regina adoeceu. Tão pequena e tossia sem parar. Os médicos diagnosticaram como uma gripe forte e receitaram os remédios. Mas o sofrimento dela atingiu a família e os deixou muito tristes. Num desses dias de repouso da menina, Maira estava sozinha com as crianças e precisou ir até a cozinha cuidar da comida e pediu: “Alef, cuide de sua irmã por alguns instantes, eu já volto”. Dona Maira foi até a cozinha com o coração partido de ouvir a amada filhinha tossir tanto. Felizmente as pequenas obrigações da cozinha a fizeram esquecer por alguns instantes aquela dor. Quando deu por si, já não podia mais ouvir a tosse da filha. O que a devia deixar tranqüila, apenas a alarmou: “Filho, está tudo bem com Regina? Filho?”. Alef não respondia então Maira correu para o quarto e encontrou a filha dormindo sossegada e respirando com facilidade. Alef nem se importava, estava assistindo desenhos animados. A mãe tocou o peito da filha e percebeu que sua respiração não tinha mais aquele ronco típico da gripe e ficou perplexa. Olhou para o filho e não hesitou: “Alef, você fez alguma coisa com Regina?”, “Não mamãe, eu tava quetinho”. Maira suspirou fundo e estava de saída quando ouviu: “Foi Bete que fez...”, “O que ela fez?”, respondeu a mãe sem nada entender “Ela curou a Regina”. Aos prantos a mãe lhe disse: “Então diga a Bete que serei eternamente grata e que a amo como se fosse minha filha também”, “Ela sabe mamãe. E disse que é sua filha também”.

1991

Dias e meses passaram e a melancolia de Alef parecia ter diminuído. Ele já não falava tanto de seus irmãos e sua amizade com Bete não atrapalhou sua amizade com Regina, nem com os amiguinhos da escolinha, quando começou a freqüentar. Ele era um garoto muito competitivo, sempre queria ser o primeiro. Não dava muita atenção aos ensinamentos, mas sempre que havia uma lição ele respondia sem pestanejar. A professora e a coordenação ficavam impressionadas com a capacidade dele e atribuíam isso à cultura dos pais, ambos graduados e ainda estudiosos.

1993

Os problemas voltaram a aparecer no seu sexto ano de vida quando acordou novamente chorando de madrugada. Dessa vez, mãe e pai foram acudi-lo e ele dizia, aos prantos: “Bete vai embora! Bete vai embora! Não deixem ela ir embora!”. Depois desse dia ele tentava falar com ela que parecia não mais responder. Começou a ficar muito triste. Algumas vezes ele disse que a via, mas era só por alguns instantes, com o canto do olho: ela sorria e sumia quando ele olhava. Quando isso acontecia, sempre chorava e começou a ficar agressivo quando os pais tentaram compensar essa perda, para ele, irreparável. Esse comportamento se estendeu para a escola e ele começou a agredir os coleginhas quando estes o contrariavam. Os pais foram chamados muitas vezes pela coordenação que, decepcionada, acabou convidando-os a tirar o menino da escola e que procurassem tratamento, para ele e para os pais. Chegaram até a alegar que o casal estava se desestruturando e que isso certamente estava atingindo a criança. O que não era verdade: Anderson e Maira tinham seus problemas, mas nunca deixaram que seus laços afrouxassem a tal ponto. Injuriados, procuraram várias escolas, mas em pouco tempo tinham que tirá-lo, pois seu comportamento era muito arredio. Deixaram que um tempo ele ficasse apenas em casa e contrataram uma psicopedagoga até que acabasse o ano letivo e ele pudesse voltar à escola.
Veio então uma doutora gentil, que aos poucos conseguiu conquistar sua amizade. Ela também criou um profundo afeto pelo menino e passou a freqüentar sua casa quase todos os dias, às vezes, apenas para brincar com ele. Demorou meio ano até que ele conseguisse esquecer Bete e seus irmãos, mas foi muito rápido dada a gravidade da situação. Começou a se relacionar novamente muito bem com os pais, com a irmãzinha e tudo ia muito bem. Parecia que a família teria paz por algum tempo. Alef se tornou mais calmo e paciente, tanto que aceitou muito bem quando a psicóloga disse que passariam a se ver menos e depois, menos ainda e que depois de um tempo talvez não se vissem mais. Ele chorou muito, mas não de mágoa, apenas pela emoção. E mesmo sem que ninguém tivesse lhe avisado, no dia que seria sua última visita ele disse a ela: “Adeus, tia Theodora”.

***

Assim termina meus escritos sobre a infância de Alef, abrindo as portas para o futuro capítulo que ainda escrevo sobre sua juventude. Espero que tenham apreciado a leitura e que estejam curiosos por mais.