segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A Infância de Alef - Parte 2 de 3


1989, Brasil

Um dia o menino acordou assustado e chorando desesperadamente. Naquela época tinha pouco mais que três anos, era um garoto saudável que nunca tinha apresentado maiores problemas desde que nasceu, ou melhor, desde que chegou. A mãe correu assustada, como fazem todas as mães, mesmo quando a criança não saiu de seu próprio ventre. Ela o pegou nos braços e abraçou muita força, para dar-lhe segurança e embora ela não tivesse lhe perguntado o motivo, ele disse: “Mamãe, onde tão meus imãos?”, “Regina está nanando”, ela respondeu sem demora. “Não mamãe, meus outros imãos, meus imãos di vedade”, com essa pergunta ela ficou arrepiada até as pontas dos fios de cabelo, mas respondeu trêmula: “Só sei que estão bem, fofo, fique tranqüilo, Alef”, “Não... Não tão bem! Eles vão moê! Ajuda eles, mamãe! Po favo! Eles vão moê!”. Então ela chorou e se deitou ao seu lado, para acalmá-lo até que conseguisse dormir.
No dia seguinte e no outro nada mais ocorreu. Continuava uma criança feliz e saudável. Brincava e brigava com sua irmã caçula causando todos os problemas que uma família finge não gostar de ter com os filhos. Um dia Dona Maira, a mãe, estava cozinhando e Alef se aproximou para observar. “Qual o nome dête?”, ele perguntava apontando para algo, “Rabanete”, “Po quê?”, e a mãe brincava: “Porque ele parece um rabo!”. Alef gargalhava alto deixando sua mãe feliz. “E ête?”, “Cenoura”, “Po quê?”, “Porque é a mulher do Cenor! Bom dia Cenor, bom dia Cenoura!”. E novamente ele ria de maneira tão agradável. “E ête, mamãe?”, “Pepino”, “Po quê?”, “Pois é um pé em forma de pino!”. Desta vez até a mãe riu muito, mas parou quando percebeu que seu filho já não estava mais rindo. “O que foi, filho?”, “Mamãe, po que eu chamo Alef?”. Então ela continuou cortando os legumes e tenta se lembrar quando escolheu este nome, mas sua memória falhou então, apenas para não decepcionar o filho, respondeu: “Por que Alef é o nome mais bonito desse mundo, assim como meu filhinho”, mas ele franziu as sobrancelhas e respondeu: “Não... É poque eu sou o pimêio... E o último”. A mãe soltou a faca e suas pernas vacilaram. A faca caiu fazendo um ruído estridente, mas ela só se preocupou em se sentar. “Mamãe, ta tudo bem? Mamãe?”. E ela apenas olhava o filho, com receio no coração.
Nas noites seguintes foi a vez da mãe ter sonhos perturbadores, enquanto não teve coragem de contar ao pai. E, quando ela o fez, ele não se surpreendeu: “Tranqüilize-se, querida, ele é apenas uma criança. Mas se algo de estranho acontecer novamente, não deixe de me contar de pronto, para que você não fique tensa”. Mas não demorou até que o pai começasse a presenciar acontecimentos estranhos. Certa feita, numa comemoração, Maira chamou algumas amigas para relembrar a época de escola. Alef estava dormindo e quando acordou veio cambaleando até a sala, ainda perdido pelo sono. Logo buscou mãe que o acolheu no colo com muito carinho, sensibilizando as colegas que soltavam interjeições amáveis. “Oi filho... Dormiu bem?”, ele assentiu, mas continuou com os olhinhos fechados, ainda ressonando. Imaginando que o filho fosse voltar a dormir, continuou a conversa: “Do que falávamos mesmo? Ah! Da professora maluca... Gente, o que tinha aquela mulher? Ela já morreu?”, “Ai, nem sei”, respondeu a amiga “Mas se morreu, foi para o céu, pois ela sofreu horrores com nossa sala”, continuou a outra. Então o pai, Anderson, se aproximou, trazendo a jarra de suco e os copos e perguntou: “Acho que você já me falou dela, como era mesmo seu nome?”, e a mãe respondeu: “Bete”. Alef arregalou os olhos na hora e todos ficaram um pouco assustados, mas começaram a rir, pois ele fez uma carinha muito engraçada. “Agora ele acordou mesmo”, disse uma amiga, mas quase a interrompendo ele disse “Bete é minha imã”, e todos riram novamente. “Não filho, é Regina. Se confundiu?”, “Não... Bete é minha imã. Regina não”, “Não fale assim filho, que falta de respeito”, disse o pai, mas Maira já estava preocupada, lembrando-se da outra noite. “Tudo bem, filho”, disse a mãe, tentando apaziguá-lo em vão. “Eu amo muito a Bete. Ela ta sempe comigo”. Todos ficaram um pouco desconcertados e procuraram não tentar dissuadi-lo, para não prolongar o assunto, pois as amigas perceberam que Maira ficou muito incomodada. Anderson relutou, mas ainda imaginava se tratar apenas de um sonho, ou de uma amiga imaginária.
A partir daquele dia, Bete acompanhava Alef em qualquer lugar, pelo menos, era o que ele dizia com frequência. Bete dormia com ele, almoçava com ele, brincava, corria, assistia televisão, ouvia música e tomava banho com ele. Por vezes os pais o viram conversando, assuntos de criança, como dinossauros, carros, aviões, desenhos, heróis e robôs e isso até os deixava feliz, pois Regina era muito pequena para conversar com ele e onde moravam não havia muitas crianças e ele teria de esperar até começar a escolinha. Até que um dia o pai foi chamá-lo para almoçar e o pegou observando uma bíblia ilustrada. Ele olhava com tanta atenção que o pai não teve coragem de incomodá-lo e ficou apenas espiando pela fresta da porta: “Bete, o que ta esquito aqui?”, ele aguardava um tempo e dizia “Ah... Po que?”, novamente aguardava um tempo e virava algumas páginas. “E ete?”... “Mmm... Eu não lembo disso”... Então virou várias páginas até cair nos salmos, um deles, em especial, é dividido em vinte e duas partes. Ele apontou para o primeiro nome e disse “Alef... Ete sou eu... Bete... Eta é ocê... Gimel... Foi emboia? Dalet... Foi emboia? Het... Teth... Tudo eles?”. Alef começou a choramingar, mas antes que o pai entrasse, ele perguntou a Bete: “Po que só tem eu e ocê agoia?”, e começou a chorar. O pai entrou, abraçou o filho e deixou que ele chorasse bastante, até que disse: “Você tem muita saudade dos seus irmãos?”, o menino assentiu e disse, “Bete também”, “É ela quem lê a bíblia para você?”, “Não... Só as palavas que eu ainda não lembo”.
Os pais passaram a ficar mais preocupados, mas acharam muito cedo para procurar ajuda profissional. Anderson não conseguia localizar Ahmed, o amigo que havia lhes doado a criança, nem pelos consulados, nem pelos colegas. Ele havia desaparecido. No entanto, toda aquela estranheza do menino os iluminava e eles não conseguiam acreditar que poderia ser nocivo para ele ou para outrem.

Continua...