quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A Infância de Alef - Parte 1 de 3

       Caros! Segue a primeira parte deste capítulo extra da história de Gêmeos.Virtuais, para dar início a uma série de degustações do livro que vou postar com determinada frequência, para esquentar o clima do novo apêndice que comecei a escrever, sobre a juventude de Alef.
       Como este capítulo extra não faz parte do livro e como a XIII Coletânea Komedi não está à venda em livrarias e eu já não tenho mais exemplares comigo o único meio deste texto chegar a quem ainda não o leu é através da Internet (ou pela grande sorte de conhecer alguém que também tenha participado da coletânea ou ganhado um exemplar de um amigo). Espero que apreciem a leitura.

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Sempre gostei de histórias que, a princípio desconexas, se unem no final. Cinco anos depois de terminar Gêmeos.Virtuais decidi escrever um capítulo sobre a primeira infância de Alef constituindo um elo com um romance que ainda está em produção. No entanto a coletânea estava para sair e achei que este seria um momento mais oportuno, visto que o livro acabou de ser lançado. Então, se você já leu Gêmeos.Virtuais, espero que esse episódio lhe traga alguns esclarecimentos (e outros questionamentos). Se você ainda não leu, espero que essa leitura lhe desperte o interesse para conhecer.

O Autor.



Gêmeos.Virtuais – Apêndice 1 – A infância de Alef


1980, Bagdá


Uma carta é levada às pressas através dos corredores do 1º Palácio para o gabinete do presidente Saddam Hussein. O oficial treme e transpira, por saber que um atraso significaria punição, mesmo que não fosse sua culpa. Durante o caminho ele pensa em sua família, rezando para seu Deus que aqueles não se tornassem seus últimos momentos. Tocou duas vezes na porta e ao ouvir a ordem, entrou. O presidente estava olhando pela janela, falando ao telefone, utilizando um inglês arrastado e mal deu atenção ao oficial, que apenas aguardou, com os olhos fitando o infinito e a carta entre as mãos. O presidente Hussein, ainda muito envolvido com o telefonema apenas abanou a mão direita para que o oficial deixasse a carta e se fosse. Então o rapaz, aliviado, deixou o envelope sobre a mesa e saiu, prestando continência. Ao terminar o telefonema, abriu a carta com um rasgo e retirou de dentro o documento que trazia no topo o brasão do gabinete do presidente dos Estados Unidos da América. A carta continha as informações que seu governo tanto esperava: um financiamento bilionário para prosseguir com as pesquisas nas áreas de genética, inteligência artificial e outras áreas de interesse, contudo, com a condição já aceita de revogar um acordo feito com o Irã e retomar aproximadamente 500 quilômetros quadrados de terra, cujos recursos pretolíferos seriam de propriedade dos Estados Unidos. Nos anos seguintes, enquanto se desenrolava a Guerra Irã-Iraque, com apoio da União Soviética e Arábia Saudita, outros vinte e um laboratórios subterrâneos estavam sendo construídos, espalhados por todo Iraque e no primeiro deles as pesquisas já estavam sendo desenvolvidas num ritmo vertiginoso.


1985, Basra


Dr. Ahmed trabalhava no Laboratório 1 quando a guerra ainda estava em ascensão e o exército Iraquiano apenas intensificava as hostilidades, bombardeando uma Usina Nuclear ainda incompleta em Bushehr, no litoral sudoeste do Irã. As pesquisas haviam conseguido seus primeiros sucessos na área da genética, quando há um ano Ahmed finalmente conseguiu recolher material genético compatível com o que eles haviam criado em laboratório. Nascia a primeira criança do projeto, gerada no ventre de uma mãe de aluguel anônima que não pôde tomar a criança no colo nem no dia do parto. Era um menino saudável e não apresentava nenhuma má formação. Uma série de exames foi realizada para constatar que ele era perfeito, no mais puro sentido da palavra. Dias depois o Dr. estava em seu escritório quando recebeu uma ligação misteriosa, uma ameaça: alguém havia descoberto sua dupla identidade e exigia que ele reunisse resultados e materiais essenciais do projeto e os entregasse em troca de sua vida e de sua família. Ahmed pensou em sua mulher, em sua filha de apenas um ano e no pequeno recém nascido. Gravou todas as informações em um disquete e o guardou no bolso. Completamente tenso e tomado pela dúvida, foi ver o bebê e orar, para que seu Deus lhe enviasse um sinal. Enquanto observava o menino dormir em paz, expandindo aquele pequenino tórax a respirar ouviu uma surda explosão: o Irã realizava um contra ataque. O laboratório entrou em estado de alerta e evacuação. Tudo estaria perdido. Antes que os oficiais pudessem tomar alguma atitude Ahmed pegou o bebê, enrolou em uma manta e foi até o laboratório principal: mais um equipamento precisava ser protegido antes que tudo explodisse ou que o governo Iraniano tomasse como espólio. Guardou o aparato em um baú revestido de couro marrom com fecho e símbolos dourados. Fugiu por uma saída alternativa até seu carro, evitando ser visto, deitou criança com cuidado no banco do passageiro, guardou o baú no porta-malas, mas pouco antes que entrasse no veículo um soldado suspeitou e se aproximou, apontando o rifle para sua cabeça. O soldado era seu amigo, mas não havia amizade que compensasse a fúria do ditador. O bebê resmungou e o soldado pediu que o amigo se afastasse. Ahmed ficou próximo ao capô e a porta aberta ficou entre ele e o soldado. Sabendo que aquela traição significaria sua morte e de sua família, chutou com violência a porta contra o soldado que, depois de esmagado, caiu para trás. Enquanto o soldado se contorcia, tomou seu rifle e apontou para sua cabeça. Pediu que se ajoelhasse de costas, mas não teve coragem de atirar. Deu-lhe uma coronhada e fugiu. Buscou sua mulher e filha e utilizando seu segundo passaporte voou para o Brasil, onde deixou o baú com um amigo e o bebê com uma família pela qual ele tinha muito apreço.


Continua...